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Artur Salada Ferreira, administrador do Lisboa Biz (Foto: Inês Antunes)

As Dona Branca

Por: Artur Salada Ferreira, administrador do centro de negócios Lisboa Biz

Na década de oitenta do século passado (faleceu em 1992), uma mulher de aspeto humilde desenvolveu uma atividade financeira concorrente dos bancos, absolutamente ilegal e durante anos clandestina.

Esta atividade consistia em receber quantias de dinheiro com o objetivo de melhorar a rentabilidade das economias a ela entregues. Quando se tornou mais ou menos pública passou a ser carinhosamente chamada de Banqueira do Povo.

Não se lhe conheciam empresas ou quaisquer negócios que justificassem os valores que garantia aos seus investidores. Mesmo depois de denunciada muitas pessoas continuaram a confiar-lhe as suas economias.

Ao fazê-lo, estavam a manter a atividade, pois era o dinheiro dos depositantes que ia permitindo manter a promessa de elevadas rentabilidades.  Ao tornar-se público e alvo de justiça o fluxo de entradas de dinheiro parou e o sistema ruiu.

Quem julgava que tinha o seu capital confrontou-se com a realidade. Quem usou a Dona Branca desde os primeiros tempos ganhou muito dinheiro e os que entraram no fim do sistema perderam tudo.

A lição mais relevante que se pode tirar é que: quando a esmola é grande o pobre desconfia.

Conhecemos hoje a atuação de bancos que usaram o método da Dona Branca. Bancos que, entretanto, faliram ou foram capitalizados com fundos públicos.

A decisão de adotar um método de resolução para o BES anunciado nas televisões em direto pelo governador Carlos Costa a 29 de dezembro de 2015 é, seguramente, o momento mais dramático vivido no sistema financeiro em democracia.

A situação encontrada no BES e os métodos praticados assemelham-se aos que utilizava Dona Branca. Não posso deixar de referir o papel do banqueiro do regime na governação de Sócrates. Era tal a influência que passou a ser conhecido como “Dono Disto Tudo “. Basta ouvir os “lesados” do BES para perceber que também eram prometidas rentabilidades elevadas para produtos que nem existiam. O chamado papel comercial que era vendido aos balcões do BES afinal não existia.

Os que aplicavam há mais tempo terão ganho bom dinheiro, mas os outros perderam e alguns quase tudo. Pode até afirmar-se que as rentabilidades oferecidas deviam fazer despertar os clientes do banco.

Mas estamos a falar dum banco respeitado e com cerca de 150 anos de atividade. Venda de papel comercial ao balcão do BES configura o método utilizado por Dona Branca o que torna Ricardo Salgado muito mais responsável por mais consciente do que estava a ser praticado pelo seu banco.

A ele, que nasceu banqueiro e foi formado para exercer esta função como líder, estes procedimentos são indesculpáveis. Aos leitores, um aviso: “Nem tudo o que brilha é ouro”.

Ao escrever este texto assisto a um espetáculo indecoroso, de baixíssimo nível, protagonizado pelo sr. Berardo perante os deputados da Assembleia da República que, surpreendidos, não reagiram como era exigido: expulsá-lo e entregá-lo ao Ministério Público.

Não podia deixar de referir este acontecimento que resume a atitude de quem sente as costas quentes, ou é duma ignorância assustadora. Como pôde uma figura destas ter acesso a tantos benefícios e facilidades, nomeadamente por parte da Caixa Geral de Depósitos?

O Meu País está a arder.