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António Saraiva, presidente da CIP (Foto: Inês Antunes)

“Ser criador de riqueza neste país continua a ser mal visto” – António Saraiva (com vídeo)

Por: Ana Rita Justo e Denisse Sousa

Presidente da CIP desde 2010, António Saraiva tem-se assumido como a voz agregadora na defesa dos direitos dos patrões. O trabalho associativo começou quando, em 1984, concebeu o primeiro contrato social em Portugal. Do salário mínimo aos problemas de financiamento das empresas, o empresário traça os maiores desafios da economia portuguesa. 

PME Magazine – Como se dá o seu percurso até se tornar administrador e dono da Metalúrgica Luso italiana? 
António Saraiva – Entrei para a Lisnave muito novo, com 17 anos, para aprendiz de serralheiro mecânico, um trabalho muito duro, mas que me deu muita endurance para o resto da minha vida. Passei, ainda antes do serviço militar, para a secção de planeamento na divisão comercial e aí estive até ao serviço militar. Faço o serviço militar três dias antes do 25 de abril de 1974, foi uma experiência riquíssima, também já de associativismo, porque logo após o 25 de Abril fui eleito pela minha companhia, nas Caldas da Rainha, para delegado do MFA. Regresso à Lisnave em 1975, igualmente para o planeamento, e aí me mantive até 1986, altura em que a administração da Lisnave, que pertencia ao Grupo José de Mello, me convidou para diretor comercial da [Metalúrgica] Luso-Italiana para as torneiras Zenite. Houve uma transformação a 180 graus na minha vida, porque, como costumo dizer, tinha nascido no estaleiro, e ir para diretor comercial de um produto que eu utilizava todos os dias, mas não conhecia – não sabia como se faziam torneiras – foi um desafio que aceitei, devo dizer com alguma angústia, porque já estava na minha zona de conforto profissional naquele estaleiro e ir para uma realidade completamente diferente era um desafio. De qualquer maneira aceitei, solicitei que não me nomeassem diretor comercial de um produto de que eu não percebia nada. Aceitei ir à experiência como assessor da direção comercial e, seis meses depois, passaram-me então a diretor comercial. Faço-o durante cinco anos, sou nomeado administrador e o Grupo resolve vender a empresa. Quando me chamam, já como administrador, para preparar a empresa para ser vendida ao principal concorrente que tínhamos, a Cifial, e o dr. Salvador de Mello me anunciou que iam vender a empresa tive um clique e disse: ‘Se querem vender eu estou disponível para comprar’. Ainda hoje estou para saber porque tive aquele clique, a verdade é que o tive. Negociámos, andámos uma série de tempo entre valores, condições de pagamento, e passei de empregado por conta de outrem, para empresário com a compra em Management By Out da empresa e desde 1996 que sou o único dono da Metalúrgica Luso-Italiana, que é mais conhecida pelas torneiras Zenite, a marca comercial.

 

PME Mag. – Foi uma mudança muito radical para si? 
A. S. – Foi, porque ser empresário não é fácil, não é fácil num país que tem sobre os patrões, sobre os empresários algum estigma. Ser criador de riqueza lamentavelmente neste país continua a ser mal visto, ao contrário de outros países onde acarinhamos a iniciativa privada, os empresários, já que são eles que criam emprego, geram riqueza… Em Portugal, lamentavelmente, há um estigma sobre os patrões, os empreendedores. Há muita inveja, tiques ideológicos e isto prejudica, de alguma maneira, os pequenos empresários – situação em que me caracterizo. O país tem grandes empresários, mas a maioria são donos de micro e pequenas empresas. Das 400 mil empresas que nós temos, 97% são micro e pequenas empresas. Por isso, muitas vezes, tal como eu, o dono da empresa vive da empresa, do salário que tira da empresa. É um trabalhador que, se não é por contra de outrem é por conta própria, mas vive da sua empresa e este estigma que existe sobre os empreendedores, lamentavelmente dificulta esta atividade. Não podemos baixar os braços.

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António Saraiva preside à CIP desde 2010 (Foto: Inês Antunes)

Aqueles que, como eu, acreditamos que conseguimos, temos um objetivo, uma missão e temos de a perseguir. Gostaria que o país tivesse mais empreendedores, acho que era uma disciplina que se deveria dar desde muito cedo nas escolas, o fomento do empreendedorismo, despertar em cada um dos alunos e das alunas esta iniciativa, gerar estímulos que os levem a arriscar, a ousar, porque muito do novo país que temos de criar passa por ousarmos, acreditarmos e desenvolvermos um país diferente, com novas condições, com novas oportunidades e não esperar que os outros façam aquilo que podemos fazer por nós. É um pouco este espírito de acreditarmos em nós, de realizarmos e de construirmos que deve ser ensinado muito cedo. Começam a existir transformações a esse nível. Veja os pequenos negócios que vão florescendo. Hoje já, de alguma maneira, esse espírito começa a aparecer. Na altura não era fácil, ainda por cima eu sou de origens humildes, nasci no Alentejo, sou filho único, [tive] muitas dificuldades. Quando comprei a empresa não tinha dinheiro para a pagar, aquilo que me foi oferecido pelos anos que levava de Lisnave e pela confiança que esses anos tinham gerado, foi as condições de pagamento. Ainda hoje estou grato do Grupo José de Mello, porque deram-me a possibilidade de pagar a empresa ao longo de anos, fatiando em cada ano uma prestação, do valor negociado, porque obviamente não tinha riqueza pessoal para o pagar. O ponto de partida foi duro. Há aqueles que, numa corrida, já partem 200 metros à frente, há aqueles, como é o meu caso, que partem do ponto zero. Mas porque é mais difícil, quando se ultrapassa a linha de chegada, independente de chegarmos em primeiro ou em terceiro, temos muito mais satisfação, muito mais orgulho de ter feito isso. Razão pela qual, ao longo da minha vida, tenho ido buscar este orgulho, esta motivação que me anima, porque as provas que vou marcando ao longo da minha vida, tenho conseguido superá-las, até de vida. Há quatro anos tive um incidente de saúde, em que estive à beira da morte, mas até esse, felizmente, consegui superar e por isso, com a família que tenho e os quatro netos que adoro, tenho motivos acrescidos para acreditar que quando temos este espírito conseguimos fazer obra.

 

Leia a entrevista na íntegra na 5.ª edição da PME Magazine.

 

Veja aqui o vídeo da entrevista: